Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso: Sabores que contam histórias
Seis restaurantes do Quadrado Histórico preservam receitas familiares, valorizam o protagonismo feminino e apresentam a identidade gastronômica do distrito baiano
A Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso convida moradores e visitantes a conhecer o destino pelo legado de suas cozinheiras. No Quadrado Histórico, seis restaurantes transformaram receitas familiares em memória, trabalho e referências culturais da comunidade.
As casas surgiram entre 1982 e 2000 e acompanharam as mudanças provocadas pelo turismo. Entretanto, mantiveram ingredientes regionais, técnicas transmitidas entre gerações e formas próprias de acolher.
Assim, o percurso mostra uma face de Trancoso construída por mulheres, famílias e cozinhas que cresceram junto com o distrito de Porto Seguro.
Ali Na Janete traduz a cozinha afetiva
Janete Vieira Bonfim começou sua trajetória na praia, onde preparava moquecas, pescados e frutos do mar. Em 2000, levou a experiência para o Quadrado e fundou o Ali Na Janete.
Camarão na moranga, bobó, pirão e farofa de dendê compõem uma cozinha generosa, ligada às origens trancosenses. A família também participa do negócio e ajuda a preservar essa identidade.
No centro dessa narrativa, a Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso conecta restaurantes, famílias e lembranças culinárias. O roteiro permite compreender como o trabalho feminino acompanhou a projeção internacional do destino.

O Cacau aproxima tradição e contemporaneidade
Dora Miranda e Julieta Lemos criaram O Cacau em 1999, perto da igreja histórica do Quadrado. O restaurante combina gastronomia, arte, espiritualidade e referências culturais baianas.
O acarajé da Dora, o beiju com queijo e o camarão nativo com coco seco apresentam sabores tradicionais sob uma leitura contemporânea. Posteriormente, Maria de Fátima, irmã de Dora, entrou na sociedade e reforçou a presença familiar.

Cantinho Doce guarda memórias do antigo Quadrado
A trancosense Cássia Vieira Borges fundou o Cantinho Doce em 1987. Antes disso, ela administrava uma farmácia e vendia comidas típicas durante as festas juninas.
O sucesso da barraca abriu caminho para o restaurante. Frutos do mar, tapioca, coco, banana e pimenta-de-cheiro destacam a relação com o território.
Entre as criações da casa, o strogonoff de lagosta servido no abacaxi ganhou destaque no cardápio. Hoje, os filhos de Cássia também colaboram com a continuidade dessa história.

Casa da Glória preserva o acolhimento familiar
Maria da Glória e João Grande fundaram a Casa da Glória em 1987, quando Trancoso ainda mantinha a rotina de uma vila pesqueira. João reunia alimentos do mar e da roça, enquanto Glória preparava refeições para familiares, amigos e os primeiros viajantes.
Com o avanço do turismo, a casa ampliou sua atuação sem abandonar o ambiente familiar. Feijoada, bobó de camarão, caruru, pescados e cocadas conectam território, afeto e lembranças. Atualmente, descendentes da fundadora mantêm receitas e práticas de hospitalidade que marcaram a trajetória do endereço.
Casa Rabanete mantém o tempero de Mainha
A família de Dona Glória Possa, conhecida como Mainha, estruturou a Casa Rabanete em 1993. O negócio começou como pizzaria e, depois, adotou uma proposta de mesa variada e farta.
Moquecas, peixes assados, carne do sol com purê de aipim, doces e compotas representam a cozinha familiar. A coxinha de Mainha também se tornou uma referência afetiva do cardápio.
Atualmente, três gerações preservam o legado da matriarca. A operação também alcançou Arraial d’Ajuda e Porto Seguro, ampliando a presença da família na região.

Silvana e Cia atravessa gerações
Silvana e José Vieira abriram o Silvana e Cia em 1982, dentro da própria residência. No início, ofereciam pão caseiro, cocada, limonada e suco de maracujá.
Depois, a chegada de novos visitantes ampliou o cardápio. Silvana acrescentou peixe frito, arroz, feijão, banana-da-terra e couve às opções.
Hoje, moquecas, bobó e peixe assado na folha de bananeira representam a casa. Ingredientes como biribiri, coentro-maranhão e fruta-pão reforçam a relação com a culinária regional. Além disso, filhos e netos participam da continuidade do restaurante.

Mulheres transformam sabor em legado
Mais que apresentar restaurantes, o roteiro reconhece mulheres que criaram negócios, sustentaram famílias e protegeram saberes locais. Cada parada revela um capítulo das transformações de Trancoso.
A experiência também convida o público a observar quem produz a cultura gastronômica. Essa perspectiva amplia o passeio e evita reduzir o Quadrado apenas à imagem turística.
Segundo o secretário municipal de Turismo, Guto Jones, a proposta convida o mundo a conhecer Trancoso por suas mulheres, seus sabores e suas histórias.
Entre moquecas, bobós, acarajé, doces e receitas familiares, a rota mantém vivas diferentes formas de cozinhar e receber. À mesa, essas matriarcas continuam escrevendo a história do destino.





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