A Caixa de Sons Ancestrais une trap, maracatu e teatro musical em celebração da memória afetiv
Espetáculo idealizado por Esther Dagápito transforma experiências pessoais em uma narrativa coletiva sobre ancestralidade, pertencimento e herança cultural
A música como arquivo da memória, os sonhos como ponto de partida e a ancestralidade como caminho de encontro. É a partir dessas conexões que nasce A Caixa de Sons Ancestrais, espetáculo idealizado por Esther Dagápito que mistura teatro musical, trap, maracatu e cultura popular brasileira para construir uma experiência artística marcada pelo afeto e pela reflexão sobre as relações entre passado, presente e futuro.
A montagem parte de uma vivência íntima da artista durante o processo de adoecimento de sua avó. O que começou como uma forma de elaborar sentimentos e compreender a passagem do tempo acabou se transformando em uma obra que amplia o debate sobre memória coletiva, herança afetiva e continuidade entre gerações.
Ao unir linguagens contemporâneas e tradições culturais afro-brasileiras, o espetáculo propõe uma narrativa acessível para diferentes públicos. Crianças, jovens e adultos são convidados a percorrer uma jornada sensorial onde os sons assumem o papel de guardiões das histórias, das lembranças e dos vínculos construídos ao longo da vida.

Quando os sonhos se transformam em arte
Segundo Esther Dagápito, a origem do projeto está diretamente ligada aos sonhos que passou a ter durante os últimos meses de vida da avó. As experiências oníricas influenciaram não apenas a escrita da obra, mas também a maneira como a artista passou a enxergar a memória e a despedida.
“Comecei a escrever A Caixa de Sons Ancestrais durante o processo de adoecimento da minha avó, depois de ter um sonho muito sereno onde sentia que a passagem dela estava se aproximando. De certa forma, criar essa obra me ajudou a elaborar esse momento antes mesmo dele acontecer”, relata.
A primeira versão surgiu como uma contação de histórias voltada para o público infantil, utilizando a música como ferramenta de acolhimento emocional. Com o desenvolvimento do projeto e as transformações vividas pela própria criadora, a narrativa ganhou novas camadas e evoluiu para um teatro musical de maior dimensão artística.
Trap e maracatu dialogam com as periferias contemporâneas
Distante das convenções tradicionais do gênero, a montagem reúne artistas de diferentes áreas para criar uma linguagem própria. Produtores ligados ao trap, musicistas conectados ao maracatu e profissionais das artes cênicas compartilham o palco em uma proposta que aproxima tradição e contemporaneidade.
A combinação entre ritmos urbanos e elementos da cultura popular brasileira reforça o diálogo da obra com as vivências periféricas atuais. O resultado é uma experiência que valoriza referências afro-brasileiras sem abrir mão de uma estética contemporânea e conectada às novas gerações.
Entre os destaques do processo criativo está a participação de Mary Morado, que amplia sua atuação no projeto ao assumir funções como compositora, diretora de cena e assistente de dramaturgia. A artista vê a obra como uma oportunidade de reunir diferentes pesquisas artísticas em uma única experiência.

Memória coletiva como ferramenta de conexão
“Com anos de experiência no teatro musical e uma trajetória construída também na música urbana, como cantora e dançarina, vejo A Caixa de Sons Ancestrais como uma oportunidade de unir diferentes vivências artísticas em um único espetáculo. Poder contribuir com a composição, movimento e interpretação dentro de uma narrativa que aborda memória, afeto e ancestralidade é uma forma de expandir minha pesquisa como artista”, afirma Mary Morado.
Mais do que contar uma história, a obra busca criar espaços de identificação entre diferentes gerações. Em cena, os sons funcionam como registros emocionais capazes de despertar lembranças, fortalecer vínculos familiares e ampliar reflexões sobre pertencimento e legado cultural.
Ao colocar no centro artistas, narrativas e referências frequentemente invisibilizadas pelos circuitos tradicionais, A Caixa de Sons Ancestrais reafirma a potência criativa das periferias brasileiras e demonstra como o teatro pode se tornar um espaço de encontro entre memória, cultura e transformação social.




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