O Filho Perdido: Irene Vucovix transforma dor extrema em um relato sobre maternidade e culpa

Estreia literária da jornalista Irene Vucovix, a obra é um testemunho real sobre o amor de uma mãe diante da lenta destruição do próprio filho e da impossibilidade absoluta de salvá-lo

O livro O Filho Perdido, estreia literária da jornalista Irene Vucovix, é um testemunho real sobre o amor de uma mãe diante da lenta destruição do próprio filho e da impossibilidade de salvá-lo. Publicada pela Geração Editorial, a obra mescla memória, confissão e reconstrução emocional para narrar uma tragédia marcada por dependência química, violência, transtorno de personalidade antissocial e rupturas familiares profundas. Além disso, o relato aborda a solidão inerente a essa experiência.

Uma história real e sem romantização

Narrado em primeira pessoa, como um diálogo tardio com o filho que já não pode responder, o livro acompanha a trajetória de uma mãe que vê, impotente, o único filho mergulhar em uma espiral de autodestruição. Prisões, manipulações, furtos, internações psiquiátricas e crises sucessivas atravessam a narrativa até culminar na morte precoce dele, em 2017, aos 39 anos. Ao longo de 240 páginas, Irene conduz o leitor por um território emocional explorado com franqueza, expondo os limites do amor materno quando o afeto já não basta para controlar um outro ser.

Sem recorrer a sentimentalismos fáceis, a obra desmonta a visão idealizada da maternidade. Irene apresenta uma mãe que ama profundamente, mas que, em determinado momento, precisa se afastar do filho para sobreviver. Eu fiquei afastada do meu filho por 19 anos como uma forma de forçá-lo a assumir a vida dele, revela a autora. Segundo ela, a decisão foi orientada por psiquiatras, diante de um quadro agravado pelo uso intenso de drogas e por traços de psicopatia diagnosticados ainda na adolescência.

O nascimento do livro como uma forma de catarse
Curiosamente, a origem da obra não nasceu de um projeto literário estruturado, mas de um impulso emocional inesperado. Na época em que frequentava oficinas de escrita, Irene leu o conto Onze Filhos, de Franz Kafka. Esse conto me deu um clique, conta a autora. O que começou com apenas trinta linhas acabou se transformando em um livro. Sem conseguir encontrar um ponto de partida, Irene recebeu de uma amiga uma sugestão decisiva: gravar áudios contando a própria história. Foi assim que surgiu a primeira frase da narrativa.

A escrita, no entanto, aconteceu de forma fragmentada e dolorosa. Iniciado em 2019, dois anos após a morte do filho, o manuscrito só foi concluído em 2024. Mexer nessas coisas todas foi muito duro, mas também foi uma libertação, uma catarse, afirma a jornalista. Um dos aspectos mais impactantes da obra é o contraste entre a infância afetiva do filho e o homem que ele se tornou mais tarde, marcado por uma sedução manipuladora.

Um livro que acolhe outras mães e famílias

Desde o lançamento, em novembro de 2025, Irene vem recebendo mensagens de leitores que se identificam com a história. Agora, com o livro, muitas mães me abraçam, diz ela. O maior sofrimento dessas famílias é o isolamento, pois as decisões são solitárias. A obra toca em temas frequentemente escondidos dentro das casas, como dependência química, violência doméstica, vergonha, adoecimento mental e esgotamento emocional.

Mais do que reconstruir a memória do filho, Irene tenta devolver humanidade a alguém que terminou reduzido aos próprios erros. Meu filho foi muito mais do que o fim que teve. Ele foi amado, teve uma história, e eu precisava contar isso, conclui a autora, que construiu uma longa carreira no jornalismo antes de encontrar sua voz mais contundente na literatura.

É CEO do portal Brazil Em Evidência, colunista e assessor de comunicação. Na sua coluna no The Date News, parceiro de conteúdo iG, tem como foco principal o mundo dos famosos, música e entretenimento, além de cobrir com dinamismo temas como negócios, economia, automóveis e cotidiano.

Publicar comentário